quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Meu desejo era escrever um conto. Mas, tola que sou, penso que um conto, para ser contado, necessita de leveza, de adoráveis e atrativas palavras, uma história suave, curta, talvez até um pouquinho feliz. Então penso no tempo em que vivemos, em todas as atrocidades que cometemos, que reproduzimos, que aprovamos ou que simplesmente fingimos não acontecer, penso na ignorância e nas violências que crescem assustadoramente, penso no vazio que carregamos em nossos corações e mentes, em nossos celulares cheios de fotos com poses. Que contar? Escrever talvez um conto macabro, uma reportagem de um jornal inexistente, revelando verdades, sendo imparcial e cruelmente real? Que desejos são esses que carregamos? O quão egocêntricos e hedonistas somos e seremos? Qual o resgate devemos empreender para construirmos contos que possibilitem mudanças, ou que reconheçam as necessidades de mudar? Sinto que o tempo passa, e carrega com ele a humanidade que tivemos. Engolidos pelos desejos do mercado, que nos dita as regras, as dores, os amores,  o que devemos fazer, como pensar. Nos arrastamos em dias de semana exaustivamente trabalhados, e fins de semana porcamente aproveitados. Não nos reconhecemos no Outro, e somos alvos constantes de críticas e cobranças, parte de um jogo irracional e cruel de fazer sofrer, competir e denegrir. Meu conto se esvai em contos de terror de todos os dias, esparramados nos sofrimentos, mortes e perdas de quem nem sei, enclausurada na torre que desejei erguer para ser menos monstro, mais solitária. 

paul lewin


Estes teus vícios sórdidos, 
o teu ouro não me aprisiona
e tuas doenças são para mim
as pegadas de tua perdição. 

Não posso chorar por
todas as energias furtadas,
só a solidão basta para 
te silenciar. 

Não teime em desafiar
os trabalhos, os dias, 
as profundezas,
eu construo minhas armaduras
eu vivo para tecer 
eu canto as trajetórias. 
Os socos no estômago são 
para mim sopros de inspiração. 


sexta-feira, 13 de maio de 2016

Sussurramos justiça...
Na garganta, entre o choro  
e o grito
um desconforto enorme
nó do tamanho de nossas perdas. 
Nó que nos enforcará em breve, 
na dignidade de mulheres, crianças, 
no desamparo a estudantes e adolescentes, 
negras, negros, pobres, nordestinos, 
nos enganos calculados
que submeteram a todos nós. 
Esses dias são de lamentos, 
de vergonha e tristeza, 
dias historicamente 
humilhantes. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Me rondam as cores
perseguem minhas veias,
deixam em colapso meus pulmões.
Sopros de azuis e
jatos de amarelo no meu rosto,
o vermelho sussurrando em meu ouvido.
Carregam em mim suas
potências escondidas
os tesouros do roxo,
os lamentos do rosa,
choca-me suas violências
as gargalhadas do laranja,
os sorrisos descarados do verde.
Me procuram, me invadem
e eu desisto, descanso em arco íris. 

segunda-feira, 21 de março de 2016

então, escuta-me amigo
hoje carregamos um corpo semi morto
nossa coragem... esfacelada
desfigurado o desejo irreconhecível
enquanto isso, meu amigo,
o espelho te apresenta
te presenteia com os bicos
os falsos sorrisos
amigo, carregamos o ideal 
aquele de outrora estampado
agora subversivo, quase maldito
arrastado pelo chão
violência justificada
pela ordem e moral forjadas
amigo, o choro amargo
o doente está em todos nós
mas no espelho te apresenta
hedonismo em poses sem sentido
tudo perdeu o sentido
somente o ódio tem força
deixa, amigo, ele te arrasta 
em cores de patriota idiota
em frases pobres, podres, podadas
grita amigo, enquanto morremos
grita amigo, enquanto publicamos 
o vazio de cada um de nós, 
atolado de enganos.

poesia de pureza.