sábado, 23 de março de 2013

E. Hopper



A importância da captação da luz do sol; a figura feminina solitária e reflexiva, a espera da esperança; a solidão valorizada em contraposição à euforia do "american way of life" e sua pregação consumista comunitária; a presença dos questionamentos acerca dos relacionamentos desgastados e vazios; a presença recorrente de janelas, enquanto vislumbre de possibilidades futuras; a necessidade de apreensão da realidade, no desinteresse em produções abstratas; o artista objetivo, segundo sua própria definição, Edward Hopper.

era, e foi.

Foi preciso lembrar, para alcançar as vitórias conquistadas, só que repetir é um processo também de evocar, e isso basta. De um lugar alto enxergar-se longe. Basta isso para processar erros, sintetizar enganos, recuperar alegrias e encerrar, o que se foi, para poder fomentar o que virá. Datas não serão esquecidas, mas não se trata apenas de retomar fatos como numa história positivista, é partir da escolha, e desencadear a renovação. Páginas viradas na força da vida, na constante procura, na plenitude do vir a ser, e será. Aos poucos os tropeços cessarão, virtudes como presentes, como propostas. Só para não cair na solidão, porém, nem tanto ao peixe; tão pouco a ninguém cabe subjugar, até então o que se almejava era correr no desequilíbrio do entardecer, fugir da castração cotidiana, gozar da libertação. Carrega-se fardo que outrora tombou abandonado num canto escuro da existência, repetidos gritos e anseios que rodopiavam na consumação do nada tornado. Já aponta direções, já faz flor aberta o brilho nos olhos, canta os sonhos impetuosos da anunciação, esplêndida. Por isso, bastou recolher os ramos ainda esparramados, enquanto clareia novo dia, mergulha na formosura de ser só a paixão, o delírio, a imaginativa contemplação; e fortalece, nestas palavras, recorre ao ímpeto para mais tarde deixar-se descansar, encantadora volúpia. 
Ladra a vantagem
Escapa a pretensão
Assume faltas.
Falta de escamas
Cria em reprodução.
Nada foi notável,
Exímia contradição
Recuperação de gotas
Viagem em escopos
Eterna repetição.
Júbilos. 

quinta-feira, 14 de março de 2013

Paulo Leminski


Rótulo.

Não é nada difícil, nem penoso, encontrar e entender seus quereres. Seus desejos estão estampados na tua cara, na tua fala, na tua postura. Somos hoje esse resumo de rótulos, de espólios de outrora, de promessas mal resolvidas e não atingidas. Uma cartilha na composição de ideias e esteriótipos. Livretos de fácil percepção, adequação e uso, trata-se dos manuais para ser parte de algum grupo, ordem, tribo ou sei lá que diabo de nome tem. As pecinhas do quebra-cabeça são de fácil montagem, e resta saber qual o nível de percepção de mundo e de si mesmo tem a oferecer: quanto mais achar que o mundo gira ao redor de seu umbigo, mas vai ostentar um orgulho pobre e medíocre. Banalidades e perversões!  

As, são.

São diversas as formas
as formas
as várias trocas
as forças

São diferentes as causas
as faltas
as muitas normas
as folgas

São distintas as cores
as folhagens
as deveras dores
as farsas. 

Sucumbe.

Capturo os suspiros, sublimes avisos
O sorriso escondido
A dança no passo contido
Um segredinho que carrega o Universo
E nada pode parar,
A leveza de um coração batido
A música, melodia de espólios,
De embates na procura,
Quem?
As mensagens nunca foram subliminares
Descarrego. 

E

Engendrar o caos
Enganar as dores
Encontrar o substancial

Esconder misérias
Escapar das mesmices
Esculpir belezas


14 de março!


quinta-feira, 7 de março de 2013

Levante.

Quanta doçura e devassidão no mundo!
Loucura e desajuste, quantos!
Eros briga para existir, debate-se
no meio da multidão citadina,
no coração dos deixados
à margem, esquecido por
poderosos de merda que
só alimentam uma engrenagem
insana e autodestrutiva.
O Amanhã se levanta, forte,
imbuído de esperança,
de combate, para sufocar
derrotas antigas e trazer a tona
os esquecidos vencidos. 

sexta-feira, 1 de março de 2013

Hirudina.

O eterno retorno
do sanguessuga,
hirudo,
que só vive
enquanto suga,
se alimenta,
apoderando-se
de outrem.
Sua força é roubar
vida, palavras,
concepções de vida.
Mal sabe o risco
que corre
seu hospedeiro da vez!
Assim segue, até
eclipsar o próximo,
para então destruir-lhe
a simples existência.
Até tornar corpo vivo
em semi-nada. Vai. 

poesia de pureza.